Assista na integra: Fernandinho no Globo Repórter

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Costela de boi, pernil de porco, 12 temperos secretos. Sabores apurados em pelo menos sete horas de fogo. Um churrascão para 1.500 pessoas. Católicos do interior paulista ajudando, cheios de gosto, uma igreja de Moçambique, na África.

“A paróquia que nós ajudamos lá faz 50 anos e não tem dinheiro para comprar um altar, então, esse almoço é para fazer um altar lá em Moçambique”, diz o padre Jocelir Vizioli, da Igreja Nossa Sra. de Caravaggio.

Destreza de gaúcho de Passo Fundo, para comandar o churrasco, senso de humor afiado para responder à pergunta inevitável: E o pecado da gula, como é que fica?

“Ah, hoje esquece o pecado da gula. Hoje é tudo para a glória de Deus”, diz o padre Jocelir.

Padre Jocelir chegou a Rio de Claro, estado de São Paulo, há 12 anos. De lá para cá, foi preciso até erguer igreja nova para acolher multidões. Com um detalhe: a maioria é de jovens.

“A Igreja, como toda a sociedade, ela vive suas dificuldades. Crises, em todos os sentidos, mas eu acho que também é um momento muito profundo, um momento de purificação. A Igreja tem que abrir novos horizontes. Caridade. Principal. Mais que a fé. Olha, e praticar. A fé sem obras é morta, e isso é bíblico, é São Paulo. Então, eu acho que a pessoa que pratica a caridade, com suas virtudes, é muito acima do que ficar rezando o dia todo. Deus precisa muito mais, afinal, o segundo maior mandamento de Deus, qual é?

Amar o próximo como a si mesmo”, declara o Padre Jocelir.

Principalmente quando o próximo precisa de perdão e de uma nova chance. Como Edgar e Genivaldo, que agarraram a mão estendida pelo padre.

“O problema do preso é o seguinte: o preso, quando ele ganha liberdade, ele sai na rua e não tem a confiança de ninguém. Ele não tem a confiança de ninguém. Então, o padre, ele foi a pessoa que já foi abrindo as portas pra mim”, diz Genivaldo Santana, serralheiro.

“Quando você se sente útil, você se sente necessário. Isso aí é um combustível para você trabalhar. Para você viver”, diz Edgar de Jesus, mecânico.

O padre deu uma força até na vida afetiva. Os dois reencontraram o amor dentro da igreja.

“Eu nunca tive preconceito dele, isso jamais passou pela minha cabeça. Porque as pessoas me criticavam, sabe? ‘Ah, você não merece uma pessoa assim, você merece coisa melhor’”, declara Ana Aparecida dos Santos, aposentada.

“É sempre aquela palavra forte, né, se envolvendo com ex-presidiários, como se eles não fosse ninguém. E não é assim”, conta Carla Cristina Lucindo, operadora de montagem.

Assim como Edgar e Genivaldo, centenas de presos em regime semiaberto já trabalharam nas obras do padre. Ajudaram a construir a própria igreja. E um centro social, no bairro mais pobre da cidade. Eles recebem um salário e têm a pena reduzida. A próxima obra, quando passar o período de chuva, será uma quadra poliesportiva.

A música tem papel fundamental nas missas. Os fiéis lavam a alma. Mas segundo o padre, o grande segredo está no acolhimento, com um toque bem pessoal. “O povo hoje quer muito, eu diria assim, de tocar. Hoje o povo tem necessidade. Já que vivemos no mundo do individualismo, que ninguém mais quer que se toque, esse toque faz diferença”, declara o padre Jocelir.

Terminada a missa, o padre conversa individualmente com todas as pessoas que quiserem, o que às vezes entra pela madrugada. A fila é grande.

“É a verdadeira paz interior, vale à pena você ficar esperando. E já fiquei esperando até mais, né, Rê? E vale a pena mesmo, é muito bom. Sai daqui leve, livre, coração aberto”, declara Lúcia Cristia Rúbio, desempregada.

Vendo o rebanho crescer, enquanto o número de católicos diminui, o padre acredita que a fé está acima das igrejas. “Vou ser bem sincero. Eu não vejo a Igreja evangélica como rival. Por quê? Primeiramente nós não temos Deus em uma gaiola como só nosso. Deus é de todas as religiões. Então, muitas vezes, ‘ah, vou virar evangélico’. Louvado seja Deus, se você vai viver uma coerência, seja evangélico. É melhor ser um bom evangélico do que um péssimo cristão. Porque não basta simplesmente dizer ‘eu sou cristão Mas você participa? Não. Vai à Igreja? Não. Você vai à missa? Não. Você ajuda? Que cristão que é?”, indaga o Padre Jocelir.

Pois é. Nos dias de hoje quem se habilita a ajudar, por exemplo, gente já abandonada por quase todo o mundo caída no inferno das drogas? Aqui na região da Cracolândia, em São Paulo, há cristãos enfrentando esse desafio todo santo dia.

Muitos são ex-drogados, no último estágio de um processo de recuperação. O projeto da igreja evangélica batista, que ganhou o nome de Cristolândia, foi idealizado há cinco anos, por um pastor. Ele próprio um ex-usuário de cocaína, limpo há 28 anos.

“Aqui não existe religião, aqui não existe cor, nada. Pode vir todo mundo, entra, toma café, almoça, janta com a gente. Nós temos eles como parte da família, são os nossos irmãos em Cristo. Então, eu não vou jogar meu irmão na rua. Então, aqui ele não tem pressa de ir embora. Aqui o tratamento é lento porque as drogas deixaram muitas sequelas, e eu acho que é passo lento”, diz o pastor Humberto Machado, 1ª Igreja Batista de São Paulo.

As calçadas próximas amanhecem cheias de gente. Sempre há gente nova, mas também muitos que ainda não decidiram mudar de vida. Para todos, o acolhimento é o mesmo.

Comida, banho, roupa limpa, conversa para quem quer conversar.

Depois, os veteranos, de camiseta amarela, usam a música para tocar os corações e buscar lá dentro um pouco de esperança. Lá nasceu o coral da Cristolândia, que já tem 400 integrantes entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Somando o pessoal dos projetos de Recife, Brasília e Belo Horizonte, já são quase 800 vozes.

E tudo começou por acaso, um dia, conta o filho do pastor.

“A gente resolveu do nada pegar um violão e cantar ‘Nada Além do Sangue’ no final, e a Igreja chorou. Foi um chororô vendo esses meninos levantando as mãos, dizendo que é livre. E aí só foi mais bênção e mais homens entrando nesse coral”, conta Gerson Gabriel.

Os de branco estão no começo. Vieram ontem, dormiram aqui e serão encaminhados a uma fazenda do projeto para começar o tratamento, sem remédios, que pode durar dois anos. Uma decisão e tanto, que a música favorece.

“Toca o coração da gente, sabe? A bondade, a paz, a tranquilidade que esse lugar nos traz. Entendeu? É gostoso isso. A gente se sente bem, se sente livre, essa é a verdade”, diz Olindo Gonçalves.

“Pretendo continuar o resto da minha vida aqui. Porque fui tentar me reintegrar à sociedade e não consegui. Para mim, só a obra de Deus mesmo. Porque é através do vazio que a gente acaba indo para as drogas, achando que a droga vai preencher o vazio, mas não é. É Deus que preenche”, declara Wagner Gomes.

Quem chega ao fim do tratamento é livre para seguir seu próprio caminho ou continuar por aqui, ajudando. Muita gente fica.

“Eu sou livre, eu sou livre… Nada além do sangue, nada além do sangue de Jesus”, canta o pastor.

A canção que deu origem ao coral é de um dos maiores astros do gospel no Brasil: o Pastor Fernandinho.

Em um show, numa grande casa de espetáculos do Rio de Janeiro, o coral da Cristolândia foi convidado a se apresentar. Dezoito mil pessoas cantaram junto.

O ritmo é rock’n’roll, até bem pesado, às vezes. As canções, dessas que não saem mais da cabeça. “Ela pode ser uma isca, né? Na verdade, é muito mais do que a religião em si, mas para o que a gente prega que é Jesus Cristo; colocar Jesus Cristo na vida das pessoas”, diz Fernando dos Santos Junior, pastor da Igreja Batista.

O pastor mora com a família em Campos, no interior do Rio de Janeiro. E se apresenta toda quinta-feira em um templo da Igreja Batista, novinho em folha.

“Os cultos já eram muito lotados, mas se tornaram impossíveis continuar no templo antigo, que não é um templo pequeno. Mas aí tivemos que, pela afluência tão grande de gente, fazer o templo novo aqui. São 2750 cadeiras. Já está lotado”, declara o Pastor Éber Silva, 2ª Igreja Batista de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.

E também aqui, se observa o mesmo fenômeno: maioria de jovens entre os fiéis.

“Eles querem algo que mexa com a cabeça deles, algo que preencha o coração deles. E isso se chama Jesus Cristo”, diz Fernandinho.

“Então, na hora da palavra mesmo, eles param, escutam, e muitos jovens saem de lá transformados. Revendo muitas coisas na vida”, diz Paula Cristina.

A parceria do casal vem de longe. Da juventude dentro da igreja e da descoberta de que compartilhavam um projeto.

“A Bíblia diz que a fé sem obras, ela é morta. Ou seja, se eu digo que acredito em alguma coisa, eu tenho que viver de acordo com aquilo que eu acredito. Quando eu digo que sou um cristão evangélico, eu não estou falando que eu sou um inimigo do católico. De forma alguma. Apenas eu olho de uma janela diferente”, explica Fernandinho.

O pastor da Cristolândia segue essa mesma linha e acha que as igrejas só serão eficientes no mundo atual se conseguirem abrir efetivamente as portas para o próximo.

“Você encontra boates, motéis, bares, traficantes, drogados, só não encontra a Igreja. Todas elas estão fechadas. Então, um traficante me olhou, logo no começo do trabalho, ‘por que chama a Igreja de hospital?’ É um hospital fechado e eu dou atendimento 24 horas. E aí eu tomei uma decisão de abrir uma Igreja 24hs, de atendimento dia e noite. E daí, nós iniciamos esse trabalho”, conta o Pastor Humberto.

Atualmente, são 380 internos em tratamento. Totalmente recuperados, mais de 1.500. É ou não é uma boa notícia?

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