Diário de Bordo: Confira como foi a passagem do Diante do Trono pelo Amazonas

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Foto: Jean Assis

Acompanhe o diário de bordo do Diante do Trono no Amazonas, escrito pelo Pr. Gustavo Bessa:

Um novo som no céu

O nosso coração vivia um misto de alegria e ansiedade por causa da gravação do 15º CD/DVD do Diante do Trono. Mais de 350 mil pessoas reunidas no “Santódromo” de Manaus. O clima estava perfeito. Os termômetros marcavam não os costumeiros 35 graus, mas os suaves 27 graus centígrados. Deus nos havia abençoado com uma temperatura agradável e com uma participação maciça de tantas pessoas. Vivíamos um milagre e tínhamos plena consciência disso. Precisávamos, naquele momento, da bênção de Deus para que a gravação fosse bem-sucedida. Todos havíamos feito a nossa parte. O grupo havia ensaiado exaustivamente as músicas e o ensaio geral, no dia anterior, foi, segundo a Ana Paula, ”a melhor passagem de som que ela já tinha feito”. Além disso, tanto o grupo quanto os intercessores haviam se preparado em jejum e consagração durante 40 dias. Vivemos uma noite memorável em que os céus de Manaus foram rasgados pela adoração e intercessão de milhares de adoradores reunidos.

Foi, sem dúvida alguma, a gravação mais inovadora e criativa do Diante do Trono. Não foram apenas músicas e canções, orações e intercessões, pregações e proclamações. Foi também um resgate das artes para o reino de Deus. Foi uma proclamação visível e audível de que Jesus morreu na cruz do Calvário não apenas para salvar o homem, mas também para trazer redenção à história e à cultura da humanidade.

A viagem de barco


A adrenalina efusiva da gravação no ”Santódromo” de Manaus cedeu lugar à adrenalina apreensiva por causa das quase quatro horas de viagem de barco pelo rio Manacapuru, um dos afluentes do rio Negro. Poucas horas depois da gravação, decidimos visitar as duas comunidades ribeirinhas onde a nossa igreja possui trabalhos missionários. Sem dúvida, vimos paisagens lindíssimas e animais inusitados, como dois botos que brincavam entre si, enquanto navegávamos pelas águas escuras do rio Manacapuru. Entretanto, a admiração da beleza natural desapareceu quando imensas nuvens escuras surgiram nos céus. Em poucos minutos, a claridade do céu sumiu e a chuva desceu. As nossas conversas e risadas se silenciaram. Havia em todos o mesmo semblante de oração e intercessão: um pedido para que Deus fizesse cessar a chuva e nos protegesse de qualquer acidente.

Enquanto orava silenciosamente, eu me lembrei de uma perigosa viagem de barco, em dia de chuva, pelo mesmo rio Manacapuru. Naquela ocasião o barco era muito menor e as águas do rio estavam muito mais turbulentas. Cheio de apreensão, naquela primeira vez de travessia do rio, eu havia cantado, impensadamente, a minha música predileta: ”Castelo Forte é o nosso Deus.” Entretanto, na última estrofe, todos nós que estávamos naquele pequeno barco (éramos quatro pessoas) silenciamos. Não queríamos cantar e sequer pensar nas palavras do hino de Lutero, que dizia: ”Se temos de perder família, bens, mulher. Se tudo se acabar e a morte enfim chegar…” Mas, graças a Deus, o Senhor me livrou naquela ocasião e me livrou de novo. Conseguimos chegar em paz até a comunidade de Bararuá. Bendito seja o nome do Senhor!

Adoração em Bararuá

chegada em Bararuá foi marcada por uma recepção calorosa, especialmente das crianças. Elas já conheciam a Ana Paula pelas canções do ”Crianças Diante do Trono”. Depois de muitos abraços e fotos, a Gislaine, missionária da Lagoinha, e a equipe de missionários do CTMDT nos levaram para um salão aberto, coberto simplesmente com telhas de amianto. Os missionários nos disseram que as crianças gostariam de nos conduzir em adoração ao Senhor por meio de danças e de algumas canções de adoração. Vivemos um momento marcante. Não sabíamos se olhávamos e nos emocionávamos com as crianças ou se fechávamos os nossos olhos para adorar ao Senhor com elas.

Esse tipo de reação, um pouco ”perdida”, durante a celebração de um culto ao Senhor pode parecer estranha ou inapropriada para algumas pessoas. Confesso, entretanto, que é difícil descrever a sensação de ouvir as canções que conhecemos na Lagoinha, sendo cantadas por crianças que vivem em uma pequena comunidade encravada no meio da floresta amazônica.

É maravilhoso perceber que Deus nos tem levado para lugares distantes. Há pessoas que nunca vimos, mas que, por causa daquilo que Deus tem feito em nosso meio, nos amam profundamente. Olhar para essas pessoas e ouvi-las cantar as ”nossas canções” toca o mais profundo do nosso coração. Somos levados a reconhecer que não existem limites para o agir de Deus. Pelo contrário, Ele mesmo abre caminhos para fazer com que o evangelho chegue ao coração dos pecadores.

Jesus, presença que transforma

Houve diversas conversões em Bararuá, mesmo debaixo de algum tipo de pressão e oposição por parte de alguns que ainda estão resistentes ao Evangelho. Uma das maiores evidências da conversão genuína é o desejo que os novos convertidos têm de proclamarem publicamente a fé em Jesus. A pessoa precisa ter muita convicção e coragem para se colocar diante da comunidade e dizer que, a partir daquele momento, ela não mais seguirá as tradições das religiões antigas. Ao dar esse passo de fé, a pessoa se expõe a ser zombada, criticada e até mesmo isolada por outros. Entretanto, muitos homens e mulheres têm sido alcançados por Jesus.

Durante o culto de celebração em Bararuá, um casal decidiu declarar publicamente a sua fé em Jesus, pedindo-nos para renovarmos os seus votos matrimoniais. Eles estavam celebrando 25 anos de união estável e, uma vez que haviam se convertido, queriam receber a bênção pastoral e também regularizar a situação do casamento perante a lei brasileira. Que momento sublime! É impossível que uma pessoa tenha uma experiência com Jesus e permaneça na mesma condição de antes! Todo aquele que tem um encontro com Jesus deseja, o mais rapidamente possível, regularizar todas as pendências do passado. Aquele casal decidiu se casar no cartório. E, por essa razão, durante o culto, oramos por eles e assinamos com eles o livro de registro civil perante o juiz de paz!

Valores compartilhados na reunião

”Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam”, declarou Paulo (Rm 8.28 – NVI). Não existem acasos ou situações sem propósito na vida daqueles que se dispõem a servir ao Senhor. Percebemos isso claramente na vida dos missionários que, há meses ou anos, têm servido ao Senhor junto aos ribeirinhos. Por causa do amor a Deus, eles deixaram cidades, casa, família, conforto e comodidade para viverem em uma terra que não é a deles, junto à gente que tem uma cultura diferente, em um lugar onde não existe nem mesmo uma mercearia e onde os belos pores-do-sol, as frutas frescas, os peixes saborosos, os sapos, as cobras, as aranhas, os jacarés e os carapanãs são comuns. Falta conforto e tecnologia e sobra beleza e natureza!

Mesmo diante das limitações tecnológicas e da beleza da natureza, o amor do povo ribeirinho é o que mais marca a vida das pessoas. A equipe de missionários, que vive o processo de adaptação a esse local tão diferente, aprendeu e tem aprendido o valor e a sublimidade da comunhão. O que falta em tecnologia sobra em pessoas; o que falta de virtual sobra de relacional. Deus mesmo usou todo esse contexto para que os missionários aprendessem a fazer bolos, pães, quitutes, guloseimas e todo tipo de comida. Comida e comunhão combinam. Os relacionamentos se fortalecem ao redor da mesa e no compartilhar do pão. Enquanto comemos juntos, partilhamos o nosso coração, as nossas histórias e os nossos sonhos. Vivenciamos um pouco dessa experiência em Bararuá, antes de prosseguirmos viagem para Jacarezinho.

Igreja e Batismo em Jacarezinho

A história dos primeiros convertidos de Jacarezinho é uma afirmação clara de que Deus é Aquele que dirige a história. Pouco antes de chegarmos ali, em 2009, a Edite, uma moradora da comunidade, teve um sonho. Deus falou com ela que algumas pessoas lhe trariam uma mensagem e que ela deveria recebê-la. Assim, quando chegamos à comunidade, algumas pessoas já estavam preparadas para receber o Evangelho. Fizemos um culto à noite, depois de um dia intenso de visitas nas casas, de diálogos com as pessoas e de atendimentos médicos e odontológicos. Naquela reunião, depois do apelo, algumas pessoas levantaram as mãos.

No dia seguinte, um casal, a Edite e o Mica, chamaram-me para visitá-los na casa deles. Confesso que imaginei que eles estavam vivendo algum conflito no casamento. Muitas vezes, as visitas pastorais têm o propósito de mediar e ajudar a resolver alguns conflitos entre cônjuges ou entre pais e filhos. Contudo, naquela ocasião, o teor e o assunto na visita pastoral foram diferentes. O Mica e a Edite não tinham outra intenção senão o de entregar a vida a Jesus. Oramos, ajoelhados no chão de madeira da cozinha, depois de termos desfrutado da comunhão, comendo uma deliciosa carne de jacaré.

O batismo deles aconteceu algumas horas depois de terem entregado a vida a Jesus. Depois de lhes darmos algumas palavras de orientação quanto à nova vida em Cristo, convidamos toda a comunidade para assistirem ao batismo que aconteceria nas águas do lago Manacapuru. Aquele ato público era a visível e audível proclamação de que, a partir daquele momento, eles eram novas pessoas. Assim, diante do olhar atento de quase toda a comunidade, o Mica, a Edite e a Dona Maria receberam o batismo nas águas e se tornaram os primeiros convertidos de Jacarezinho.

O testemunho do Mica, da Edite e daDona Maria ressoou por todo o Jacarezinho. Logo, algumas pessoas decidiram abandonar a comunidade, dizendo que os crentes haviam chegado ali. Por outro lado, pouco a pouco, o Evangelho, como fermento que leveda a massa, penetrou nas tramas sociais de Jacarezinho. Em pouco mais de um ano, depois do primeiro batismo, 70% da comunidade se converteu a Jesus. Desde o maior até o menor, a maioria dos moradores reconheceu Jesus como Salvador e Senhor de suas vidas.

O rápido crescimento do número de crentes trouxe um ótimo desafio para a liderança do Mica e da Edite. Eles perceberam que precisavam construir o prédio da igreja. Assim, com a ajuda dos novos crentes, eles compraram uma casa velha e a reformaram completamente, cortando madeira na floresta. Quando indagados sobre o nome da igreja, eles disseram: ”Igreja Batista Tua Visão: Ministério Diante do Trono”. Sem dúvida, uma referência à época e ao momento em que a igreja nasceu, quando os primeiros convertidos desceram às águas.

A influência da igreja em Jacarezinho cresceu com o passar dos meses. O líder da comunidade que, durante um tempo, permaneceu sendo um simpatizante do evangelho, decidiu se render aos pés de Jesus. Com ele, toda a sua casa se converteu. As suas duas filhas e também o marido da Dona Maria se batizaram nesse último final de semana. Atualmente, 95% da comunidade de Jacarezinho é convertida. Os cultos são realizados semanalmente. Também fazem viagens evangelísticas e missionárias com o propósito de atingir outras comunidades ribeirinhas ainda não alcançadas. A partir do trabalho da igreja, foram iniciadas duas células em comunidades diferentes. A Igreja Batista Tua visão nasceu saudável, olhando não somente para as suas próprias necessidades, mas também para o clamor dos outros povos.

Saímos de Jacarezinho rumo à Manaus no início da noite. Voltávamos para a cidade e para o conforto da nossa casa. Ali, no meio da Floresta Amazônica, ficavam não somente os nossos irmãos de Bararuá e Jacarezinho, mas também os nossos missionários, que decidiram, por amor ao Senhor e aos perdidos, permanecer longe dos muitos confortos do nosso tempo. Lembro-me deles e os vejo como parte daquele grupo de homens e mulheres dos quais o mundo não é digno. A dignidade deles não é dada simplesmente pelo fato de permanecerem entre os ribeirinhos, mas sim por decidirem perseverar na obediência ao chamado de Deus.

Pr. Gustavo Bessa

2 Comentários

  1. Meu, o trabalhar de Deus na vida desse ministério se torna cada vez mais forte!
    Pelo visto eles foram tomados pelo Espírito Santo mesmo!

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