NINGUÉM ME ENSINOU A SER VULNERÁVEL

Quando eu tinha uns 11 anos comprei um caderno pequeno (daquele sapo famoso na época, Keroppi?) e confidenciei umas coisas por lá, como um diário, e levei esse caderno pra escola. Algumas colegas viram e perguntaram se poderiam ler, obviamente neguei. Passou um tempo, duas delas vieram me confessar que haviam lido o caderno escondido, ENTREI EM PÂNICO! Uma das coisas que me lembro de ter escrito, era sobre como eu me sentia inadequada perto delas. A ideia de saber que minhas colegas sabiam a maneira como eu me sentia me deixou em choque, corri pro banheiro da escola com o caderno, me tranquei, arranquei todas as páginas escritas, joguei no vaso e dei descarga. Quando sai, essas meninas estavam do lado de fora, falando que eu não deveria me sentir daquele jeito, que não era verdade, enfim, foram umas fofas mesmo tendo feito algo que eu pedi pra não fazer.

Esses dias estava conversando com uma amiga, contei essa história e ela perguntou como eu me senti quando isso aconteceu, eu nunca tinha parado pra pensar sobre isso, mas a resposta foi “vulnerável, exposta”, e já há algum tempo ando pensando sobre como vulnerabilidade ainda é vista como sinal de fraqueza ou algo ruim. Não deveria ser assim.

Vergonha de pedir ajuda, de assumir que precisa de alguém, de se abrir com um amigo sobre um problema, de falar sobre sentimentos, pedir perdão… E nem sempre é orgulho, às vezes é só esse bloqueio de se sentir exposto, de permitir intimidade além das aparências. Medo de parecer fraco, medo do sentimento de pena (controverso, aliás). Mas vulnerabilidade é força, é amor próprio, é amor ao próximo. Aliás, quer coisa que causa mais vulnerabilidade que o amor? O outro te tem na mão, seja pro bem ou pro mal, pode alegrar seu dia com um recado na geladeira pela manhã, ou estragar o humor pelo resto da semana por causa de uma resposta atravessada via whatsapp. Vulnerabilidade é nudez de alma, e não só nos relacionamentos afetivos não, é só lembrar como as mães tendem a saber o que está acontecendo só de olhar, sem barreira nenhuma.

Uma vez estava com duas amigas, e uma chorava muito contando sobre uma determinada situação, a outra disse algo como “você não pode deixar que tudo te abale tanto assim, tem que ser forte igual essa daí!” se referindo a mim, só ri e pensei “sabe de nada!”. Esse rótulo da força é um grande engano, não é que nada me abale, eu só não exponho e compartilho e isso faz mal.
E não é sobre se abrir com qualquer um, confiar em qualquer um, mas todos temos alguém disponível e confiável, e temos que ser esse alguém pros outros também.
Quer sinal de força maior que chorar sem dignidade nenhuma no ônibus pensando nas merdas da vida? Quer força maior que admitir que precisa do outro? Ou que vacilou e se arrepende? Ou finalmente ter coragem de assumir que precisa de ajuda profissional e vai atrás de terapia? Ser vulnerável exige maior força que ser fingir ser inabalável.

Muitos de nós crescemos enquanto nossos pais e família incentivavam a independência, inclusive a afetiva, a parar de chorar, sem muitas perguntas sobre o que a gente estava sentindo ou o motivo da frustração, e a gente carrega isso pra vida (não é culpa deles tá? Provavelmente foram criados da mesma forma). Em algumas situações, sou tão insegura e me sinto tão vulnerável que volto a ser a criança dentro do banheiro com vergonha do mundo, por mais que racionalmente eu entenda tudo de outra forma hoje e encare.
Sigo na luta pra acabar com essa falsa força que mais atrapalha que ajuda, com essa vergonha de parecer menor, com o pânico de me abrir com alguém, de saber que os outros sabem o que se passa aqui e não ter problema com isso. Se sentir seguro na própria pele e diante do resto da humanidade.

E tá ok chorar no ponto de ônibus, tá ok chorar na derrota do Brasil da Copa e não se segurar porque os outros estão vendo, tá ok falar que ama (mesmo na incerteza de ser correspondido), tá ok pedir perdão, tá ok perdoar. Tá ok correr os riscos de transbordar pra fora quem a gente é por dentro.


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  • Brasiliense, 20 e poucos anos, meio comunicóloga, meio escritora, meio dançarina, e completamente apaixonada por Jesus. instagram: @rayanefrance

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