Priscilla Alcântara está fazendo “música difícil de consumir” e você precisa entender o conceito

Se você está acostumado com músicas de melodia simples e chiclete, com rimas encaixadas, versos quadrados e letras repetitivas e rasas, certamente dirá que “Gente” não é um álbum tão bom quanto dizem – ou pelo menos, não tanto quanto eu direi aqui. Fique à vontade para discordar de mim, mas questione-se sobre a profundidade musical que você costuma consumir. O novo CD de Priscilla Alcântara traz inovação desde o público alvo até as referências e formas, seja na capa, seja na mensagem.

Há algum tempo a cantora em ascensão tem falado sobre uma arte excelente que vislumbra a Cristo como essência e não como forma. Nas citações de Priscilla sobre a sua arte, a visão é de que, enquanto artista, ao fazer música, suas impressões digitais, isto é, suas características únicas, farão parte do trabalho de maneira fluida. Por ser cristã, a arte de Priscilla também aborda os aspectos cristãos da sua cosmovisão particular sobre o mundo. Mas não apenas isto, evidencia também a sua humanidade. E “Gente” é sobre isso. Sobre ir além dos muros e das linhas que dividem o gospel do secular a fim de promover, enfim, a unidade. Neste aspecto, até há sinergia e coerência entre este projeto e o anterior, “Até Sermos Um”. Entretanto, a evolução e o amadurecimento da artista desabrocham diante de nós e nos estimulam a avançar juntamente com ela, para acessar lugares mais incomuns e sofisticados.

Já na primeira música, que leva o título do álbum com o subtítulo “De Zero a Dez”, a melodia é muito mais “adulta” que o comum, os arranjos nos transportam a um lugar de reflexão, apoiados por uma voz que ecoa literalmente versos que podem ser o novo hino dos fracassados, dos pobres de espírito, dos que choram, de gente de verdade, que padece. As referências musicais já citadas por Priscilla, como Lorde e até mesmo Lana Del Rey, podem ser percebidas no tom mais introspectivo da canção, que projeta um ambiente onde quase se pode ver a persona que está a cantá-la, suspirando, fraca, subjugada, mas clamando “vou deixar a alma gritar, uma hora ela vai cansar, é quando aproveito para tentar salvar o que restou, o que a dor ainda não tocou. Sofrer não muda quem sou, não me fez menos merecedor. Sofrer me faz perceber que, mesmo frágil, eu posso ser profissional em me reerguer. Um pouco de força ainda me sobrou”. Você se compadece deste grito de socorro dessa gente?

Em “Florescer”, as notas mais pesadas continuam, mas há progressão do ritmo, o que nos convida a “levantar” do cenário de cansaço projetado pela primeira música e caminhar com a cantora rumo a esse autoconhecimento iniciado pela letra que diz “não posso evitar o fato de que ainda sou humano e que difícil é assumir a falta de controle que há em mim”. O vislumbre de Jesus traz o contraponto para superarmos a condição apresentada na primeira faixa. Ela canta “transformando em beleza a minha dor”. Durante este segundo hino, Priscilla segue mostrando a evolução vocal, o controle das notas, mas, acima de tudo. o amadurecimento da consciência para aplicar os melismas nos momentos certos, sem exageros. Outro ponto positivo é a mudança constante de tom, para cima e para baixo, quase uma brincadeira, que causa uma quebra de expectativa constante. Uma música assim exige muito mais atenção para ser apreciada porque, por não seguir o mesmo padrão do início ao fim e sempre aparecer uma novidade a ser captada. Ela está fazendo música não óbvia. Você consegue sair do status quo? Priscilla se move pelas melodias enquanto canta que seus pés dançaram com os de Jesus e diz a Ele “foi só Você se mover, para tudo florescer”. Ela está usando todos os artifícios para comunicar a mensagem. Se “Florescer” fala sobre movimento, não só a letra comunica este discurso, mas a voz, o ritmo, a melodia e tudo mais que integra a composição.

A favorita de Priscilla, “Empatia”, acelera um pouco mais o ritmo e vem ainda mais motivacional. A coesão segue firme. Os arranjos mais eletrônicos agem como se transmitissem descargas elétricas no ouvinte, é como se a mensagem de motivação do início que diz “mesmo se o choro durar, a vida não vai parar” e “veja o sol, mesmo com nuvens, escolheu aparecer, então, você, mesmo sofrendo, tem que escolher crescer” passasse a fazer todo sentido, e os estímulos nos fazem correr mentalmente – e, talvez literalmente – gritando “você é igual a mim!”. É uma espécie de celebração das diferenças que nos tornam iguais, dizendo “do mesmo lugar que você, eu vim. Como você, ao pó, eu voltarei”. Você se sente encorajado a fazer ao outro o que faria a você mesmo? Algumas notas e efeitos dão à música um ar de grandiosidade, como se uma grande decisão tivesse de ser feita.

“Solitude”, ao contrário do que se pode esperar, nos leva mais um passo adiante, com um ritmo que envolve e reitera a ideia de uma decisão a ser tomada: “é só você dizer sim ou não e transformar em solitude a solidão”. Priscilla cita as escolhas que fez em situações adversas, transformando o mal em bem, tudo isto enquanto a bateria dá o tom da quarta faixa do álbum. Ela está falando de algo sério, delicado, por vezes até grave, que é sobre como lidar com a solidão. Ela sugere uma decisão por transformá-la em solitude. Mas não é este o grande ponto. De que maneira Priscilla transmite essa mensagem? Numa canção dançante, que nos toma pela mão e nos convida a seguir num ritmo de caminhada mais firme. Se relembrarmos, começamos ofegantes, cansados. Agora estamos, ainda sendo quem somos, aproveitando o Jesus que conhecemos e o que Ele nos oferece, entendendo que Ele não necessariamente mudou o nosso contexto. Seguimos sendo gente, aquela gente lá do início, da primeira faixa. A diferença não está em nós, mas em Cristo conosco.

Decisão tomada? Escolheu certo? Esta canção é um alerta, uma lembrança. Você ainda é humano e, tentando acertar, segue errando. Mas o que Jesus tem a dizer, para “continuar tentando”, é o que “Sem Querer” tem a nos ensinar nessa jornada sobre ser gente. No refrão, é possível perceber referências de canção secular internacional, mas uma percepção mais interessante que esta pode ser o quanto este mesmo refrão também remete a uma canção infantil. E quem tem maior capacidade de seguir tentando, apesar dos erros, senão as crianças? “Eu fiz o que não devia fazer”, “meu erro não teve poder para me definir” e “Você salvou a minha pele” estão postas anterior e posteriormente a um arranjo que emite um som que evoca uma ideia de reconfiguração.

“Me refez”, single lançado antes do projeto completo, com clipe que “atualizou as configurações” do audiovisual gospel, vem logo após a esta reconfiguração que acontece em “Sem Querer”. As referências da cantora são tão fortes que o lançamento desta canção aconteceu mais ou menos um mês após a estreia de “Fall In Line”, parceria entre Christina Aguilera e Demi Lovato. As canções tem tanta semelhança que é possível fazer mashup em seus refrãos. Este é mais um ponto positivo para a artista, uma vez que fica atestada a sua coerência com o discurso de Jesus ser sua essência e não a forma. Ela consegue levar a mensagem de maneira diferente, menos comercial no mainstream gospel, mais conceitual e inovador.

Agora, refeitos, é hora de gozar a “Liberdade”. O clipe dessa música também redefiniu a estética dos clipes cristãos (sendo lançado antes de “Me Refez”, abrindo caminho e em sinergia comunicacional). A canção diz “a Liberdade [Jesus] me chamou de canto e disse assim: ‘não deixe nada te dizer quem você é, você é o que vê em Mim’”. Com um conselho desses, do próprio Cristo, o que resta a fazer senão voar, conforme a sua própria essência?

“O Amor me fez livre assim”, canta Priscilla, nesta que é a canção mais dançante do álbum até aqui. Com onomatopeias e melismas bem chicletes, o embalo questiona “onde está o amor?”. Ela mesma responde, “você só precisa amar”. São citadas situações corriqueiras, como se após tudo isso que vivemos até aqui, ainda pudéssemos perder o foco, e Priscilla alerta: “só o Seu amor me faz feliz”. Sim, a coesão discursiva do álbum segue intacta. As canções conversam entre si e colaboram para um entendimento da mensagem, como uma storytelling. A melodia da música, apesar de mais simples que as demais e mais alto astral, não é boba e a estrutura é bem construída, sem ser cansativa. O refrão, também simples, reforça os versos mais profundamente reflexivos que dizem “felicidade é de graça”. A canção “Alegria” transmite um sentimento genuíno e simples que torna esta dança leve e impossível de não acontecer.

Depois da dança, Priscilla descansa em uma conversa com Jesus sobre “Eles”, título da faixa, onde questiona se a maneira como “as pessoas de fora” enxergam a Ele não seria culpa das “pessoas de dentro”, como no vídeo promocional. “E se a falta de fé deles for culpa nossa?”, indaga. E é muito oportuno fazer essa pergunta justamente após a agitada canção “Alegria”. Quantas vezes pessoas cristãs são interrogadas quanto a legitimidade de sua profissão de fé por serem consideradas “alegres demais” e, por este motivo, não se parecerem com a persona que figura no imaginário social de “como é ser crente”? E de quem é esta culpa? Quantos “deles”, dos “de fora”, não conseguem associar Cristo à alegria? E a culpa disto, de quem é? “Eles julgam Você, por aquilo que veem em mim”, conclui Priscilla, e, então, declara “viva Sua vida em mim”. Refletir sobre como Jesus viveu é o próximo passo, para que “aquilo que sai de mim”, com diz a letra, seja a mesma virtude que saiu de Cristo. É interessante que esta reflexão acontece sem diminuir tanto o ritmo. Esta música tem uma levada pop bem forte, com interferências eletrônicas, como se estimulasse à reflexão em movimento. Não dá para parar! Não dá para perder tempo! O vocal, mais uma vez impecável, dá o tom exclamativo, de urgência do pedido. “Viva Sua vida em mim”.

O formato nada congregacional e ousado segue impresso em “Real”, última canção inédita do CD. Outra vez, todo o conjunto da obra segue em sinergia para conseguir transmitir a ideia. “Para mim, é tão real quanto essa canção” explica o esforço da letra para a transmitir a sensação de intimidade e veracidade da relação com Jesus em aspectos, inclusive, humanos, sensoriais, verdadeiros. O mood da canção evoca um Jesus jovem relacionando-se com uma jovem de maneira muito palpável no cotidiano. Na escola/faculdade, trabalho, num passeio ou viagem, é possível imaginar essa jovem, representada por Priscilla, na companhia de Jesus, numa relação real.

Finalizando o álbum, “Tanto Faz” reforça que esta companhia encontrada pela jovem artista é a coisa mais importante para ela, afirmando que “quando se encontra o verdadeiro amor, nada mais importa”.

A maneira como Priscilla Alcântara decide concluir tudo o que ela tem para dizer neste projeto é suplicando, em “Inteiro”, “vem e mostra o que eu nunca vi. Traz Tua glória, revela o céu para mim”. Invocar o sobrenatural e, em contrapartida, oferecer-se por inteiro, tal qual Jesus fez, é a assinatura final de “Gente – O Álbum”, nos levando a entender que, neste percurso, o sobrenatural, tão evocado, perpassa o natural não se opõe à nossa humanidade, mas complementa-a. Trata-se de onde estamos a para onde vamos. Ser gente é nosso ponto de partida e o nosso destino é este céu que nos será revelado. Entregar-se por inteiro é entender que Jesus não pagou o preço apenas por nossa “parte boa” (que Ele mesmo implantou em nós), mas, principalmente, por aquilo que não presta em nós. Só por isso Ele precisou morrer. E é justamente a entrega disso que Ele espera. “Disso” o quê? De nossa INTEIREZA! Corpo, alma e espírito! Nossa condição espiritual e nossa condição humana, de gente, tudo entregue!

“Gente” eleva o nível da arte realizada no nicho que Priscilla ainda está inserida, manifestando um movimento evasão. Eleva as expectativas para o próximos passos dela, que devem ser videoclipes e lives. E, mais do que isso, dá esperanças de que, finalmente, a Mensagem – e não é à mensagem da cantora que me refiro – alcance a toda essa gente, assim como já tem feito (posso testemunhar de conhecer pessoal totalmente “de fora” sendo impactadas pelo trabalho que vem sendo desenvolvido desde “Liberdade” como single).

O trabalho da gravadora, Sony Music Gospel, em acreditar num projeto tão inovador e conceitual, permitindo liberdade à artista e a todos os envolvidos para criar um disco tão ousado deve ser reconhecido. É importante salientar a importância deste apoio corajoso do diretor Maurício Soares em assumir os riscos de um lançamento que, por ser diferente dos demais, implica em ameaças ao desempenho (o que não aconteceu). É, certamente, o álbum do ano, e deve – e merece – conquistar inúmeros prêmios de música (não apenas no mainstream gospel) e levar a carreira de Priscilla Alcântara a outro patamar.

Atenção para a ficha técnica do álbum que conta com solo de guitarra por Juninho Afram (Oficina G3) em “Gente”; bateria por Valmir Bessa em “Inteiro”; e produção, arranjos, teclados, programação, baixo, guitarra, violão, tudo por Johnny Essi, que, com maestria, estabelece esse “quase duo” com Priscilla. Uma parceria sensível, delicada e necessária!Necessária porque esclarece que Jesus, sendo Deus, se fez HOMEM, e o Homem, sendo humano, tenta ser deus… Mas não deve ser assim! Nossa humanidade é importante porque Deus nos fez assim de propósito e com propósito. Sigamos a descobrir este propósito.

Confira a canção “Gente”

Texto por Alan di Assis (@alandiassis).

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