Um olhar organizado e poético sobre o “feio”: entenda os conceitos dO Final da História de Linda Bagunça

A arte é capaz de eternizar uma mensagem e tem o poder de imortalizar um artista, mas o mais importante é que a arte cumpra a missão de estabelecer um legado. O que Priscilla Alcântara tem entregado desde “Gente” (leia o nosso review de Gente aqui: https://www.cristaomais.com/priscilla-alcantara-esta-fazendo-musica-dicil-de-consumir-entenda-o-conceito/ ) é, certamente, um dos mais importantes legados que um artista cristão já construiu no Brasil; o entendimento de que se o ser humano é formado por corpo, alma e espírito, então, abraçar a humanidade em sua plenitude é não abrir mão do corpo e da alma em detrimento do espírito, como a maioria dos cristãos têm feito ao longo dos tempos, quando espiritualizam âmbitos não espirituais de suas vidas, tratando temas concretos (como, por exemplo, a depressão) de forma abstrata, como se a espiritualidade servisse como uma válvula de fuga e escape da realidade que o corpo e a alma enfrentam. O que Priscilla propõe é diferente e é, também, urgente. A perspectiva de que Deus não nos fez humanos em vão, logo, nossa humanidade importa e também deve ser vista como parte integrante da vida de Deus em nós.

O ep “O Final da História de Linda Bagunça” é, definitivamente, o oposto de uma bagunça. Sua construção é organizada e polida em todos os sentidos. Primeiro, o título do ep, que é a história completa, se destrincha e dá nome às canções “Linda Bagunça” e “O Final da História” – porque não interessa contar apenas uma parte da história, mas esmiuçá-la e contar cada capítulo – que são o desdobramento artístico do momento vivido por Priscilla e compartilhado em “188”, que é um áudio enviado a uma amiga num momento delicado e que foi inserido na introdução do projeto. Além da escolha criativa e assertiva dos títulos, o conceito visual – capas e clipes – complementam as letras e arranjos, que são, definitivamente, a parte mais relevante na construção do discurso. A colocação da voz da cantora, com mais efeitos, traz essa sensação de uma conversa em outro plano, mais psicodélica, um diálogo com a mente de quem ouve. O estio instrumental segue a mesma linha. Definitivamente, não é a música gospel que costuma-se consumir por aqui – e que bom que não é –, é uma roupagem mais parecida com as músicas pop – referências a Lorde e Aurora, mas também a trabalhos solos de artistas da Bethel – que tanto influenciam a jovem. O trabalho de pesquisa de conceito faz toda a diferença na excelência que a artista entrega nesta obra. Não havia maneira melhor de encerrar a era Gente do que com este resumo prático do que foi dito antes em teoria, com total sinergia e coesão.

Em “188”, título que faz referência ao número do Centro de Valorização à Vida (CVV) – que dá suporte emocional e previne o suicídio através de atendimento gratuito por voluntários via telefone, email e chat 24 horas –, Priscilla se expõe. É importante perceber o rompimento da narrativa heroica, presente em tantas narrativas cristãs, que dá lugar a um discurso sobre fragilidade e pequenez (literalmente, quando Priscilla menciona seus 1,56m de altura – este detalhe pode parecer bobo, mas algumas pessoas tem complexos motivados por baixa estatura). Esse áudio é um desabafo tal qual aqueles tantos que são atendidos pelos voluntários do CVV. Aqui, a cantora parece responder à pergunta emblemática “Como Vai Você?”, que é mote do CVV. A artista se coloca nesse lugar, de alguém que pede ajuda, que admite não conseguir sozinho; neste lugar de vulnerabilidade que tendemos a evitar a fim de não evidenciar as nossas fraquezas. A máxima de “tudo bem não estar bem” aparece nas entrelinhas e dá o tom acolhedor do que vem a seguir.

“Linda Bagunça” traz a mensagem necessária de que nada pode nos impulsionar ou paralisar mais do que nós mesmos. “Somos o maior de nossos dilemas”. Compreender isso é um convite a abraçar a si mesmo e mergulhar em autoconhecimento, lutando em seu próprio favor, e não contra si. Em tempos nos quais as atitudes de Adão e Eva – de transferência de responsabilidade – são tão frequentes, e em que se fala tanto sobre o diabo como o autor de nossas mazelas – como se ele tivesse algum poder sobre nós – a ideia de assumir a autoria e protagonismo da própria história se mostra como o caminho mais sensato para a cura. Mas, afinal, de que cura estamos falando?

A proposta de Priscilla é olhar para os problemas e até para os defeitos de maneira paciente e gentil… A bagunça é algo comum a todos e a autopunição (autojulgamento e precipitação) não soluciona os problemas, mas gera mais sofrimento; o princípio da resolução é olhar mais de perto – e não de longe, distanciando-se de si mesmo, fugindo das imperfeições, evitando encarar a realidade – e conhecer… Isso, sim, pode ser determinante para lidar com as falhas e injustiças que nos acometem: conhecimento. A dança é a forma poética usada para encorajar a pôr a vida em movimento e não desistir dela. Tirar essa bagunça da inércia e mover-se com ela num processo que pode ser demorado, mas há de ser transformador. A voz de Priscilla sussurra cada frase num tom mais falado do que cantado, como uma conversa íntima e envolvente com o receptor. No arranjo, diversas vozes sobrepostas umas às outras aparecem ao fundo (aparentemente, recitando o poema de Linda Bagunça, que esteve presente no teaser do projeto) causando uma sensação de confusão proposital – o que, certamente faz todo sentido para quem já viveu momentos delicados e difíceis, em que tantas vozes são ouvidas (seja de maneira figurada ou literal) –, mas logo elas são caladas e dão lugar a melismas que são o eco da própria voz da cantora – sugerindo fazer sua própria voz reverberar em si em vez de maximizar vozes alheias –, tudo isso enquanto uma melodia tranquila e crescente embala este despertar.

No videoclipe desta canção, Priscilla faz isso. Ela está imersa no que parece ser o seu quarto. Inicialmente ela parece estar se afogando. Quando o relógio aparece, entendemos que é sobre ansiedade que se fala. A calmaria vem quando ela lê a Bíblia, dando a entender que os ensinamentos bíblicos são capazes de produzir compreensão sobre momentos difíceis. Logo depois a artista nada com uma água viva… É preciso explicar essa referência sobra a Água Viva? A fluidez com que ela passeia pelo fundo do mar, que representa o seu interior inspira paciência no processo. Os móveis são antigos e vale salientar esse olhar sobre as “coisas do passado” que ela encontra quando está submersa, vasculhando com atenção tudo o que há ali. Os raios aparecem quando Priscilla emerge e olha “para fora” – de si –, mas isso não a assusta mais. Momentos depois a cantora aparece dançando em um monte de grama verde, que faz referência ao Salmo 23, mas, principalmente, a Florescer, canção de Gente, e esta menção fica nítida quando se analisa a letra dessa outra canção que diz “até que numa noite eu Te vi livre a dançar sobre todos os meus medos, transformando o chão batido em um lindo campo verdejante e, naquele instante, meus pés dançaram com os Seus e eu vi, no Seu mover, tudo florescer, transformando em beleza a minha dor”. Nesta faixa e nesse clipe, Priscilla, literalmente, vive a cena descrita em Florescer. E, caso você questione sobre a literalidade disto – por conta do trecho que se refere à noite (e Priscilla aparece dançando durante o dia) -, eu te pergunto: como você imagina que é a noite quando se está dançando com o Sol? O Sol da Justiça, capaz de pôr ordem na bagunça… Há ainda uma alusão a Liberdade, quando a intérprete, neste mesmo monte, está envolta a pássaros em pleno voo, como se fosse um deles.

Enfim, “O Final da História” tem uma pegada mais forte. A música trata sobre um momento decisivo e, para abordar isso, utiliza alguns artifícios, dentre eles, um tom mais grave, foco na voz, roupagem semelhante ao rap, instrumental com profundidade… A letra desenha uma trajetória rumo à libertação. A canção descreve um processo de cura no qual encarar os problemas de frente, ou seja, abraçar a verdade é o principal meio para conduzir a um final feliz. No arranjo, um instrumental que remete às músicas de video game explicita essa mensagem de que a vida também pode ser lida como um jogo que tem as suas fases; onde se ganha e se perde, mas o importante é não desistir. É importante notar que essa referência aos sons de vídeo game não é uma referência de som qualquer, mas às trilhas que tocam quando se chega às últimas fases, onde se encara o “chefão” do jogo, com ar de suspense, incitando no ouvinte a atmosfera de uma decisão a ser tomada. O foco está em dizer que “o fim das coisas é melhor que o começo” (referência a Eclesiastes 7:8). Você só vai entender o propósito das coisas que você enfrentou e se questionou se não desistir de ir até o fim, onde se encontram as respostas.

No audiovisual que conta o final da história, a artista aparece lutando contra si mesma – ou um alter ego – que tenta contê-la, paralisá-la. Este clipe é mais enigmático, algumas alegorias são bem subjetivas. No início, Priscilla se depara com uma ampulheta cuja “areia” (vermelha) que determina o tempo não cai, ou seja, o tempo não está sendo contado. É outra dimensão (de tempo, espaço e experiência). Enquanto a cantora aparece em meio a efeitos que a expandem, numa espécie de campo energético, imagens fluidas, como de sangue correndo nas veias, são sobrepostas. Esse sangue parece se diluir enquanto Priscilla é dominada por sua segunda personalidade, que se põe a jogar com um encapuzado misterioso. Quando o fluxo da ampulheta começa acontecer, uma mensagem pode ser apreendida: a vida e o tempo estão intrinsecamente ligados; tempo é vida e a nossa vida não necessariamente está presa ao tempo. Ao conseguir se desprender do julgo de seu alter ego, a artista consegue contê-lo – a representação desse controle se dá quando a persona alternativa da cantora aparece dentro de uma caixa de vidro. E o fato de a caixa ser transparente também faz sentido: Priscilla mantém o seu “outro eu”, o seu “eu inconsciente”, à vista, sob seu olhar, e isso faz parte do processo de autoconhecimento iniciado no capítulo anterior, em “Linda Bagunça”. O sangue que escorre da intérprete certamente é o seu próprio sangue, e pode ser entendido como representação da vida em si, ou do tempo que se esvai e se perde, ou mesmo de suas lutas e dores e sacrifícios; já o sangue que escorre sobre ela é, seguramente, o sangue de Jesus, “Aquele que todas as coisas primeiro que todo mundo viveu”. Quando Priscilla diz “eu encontrei as dúvidas contemplando o meu eu e as respostas quando contemplei a vida de Deus”, é a vida que há nesse sangue que foi contemplada por ela, logo, esse sangue vertido sobre ela é a resposta para todos os questionamentos trazidos à tona no vídeo.

A equipe escalada para Gente assina também esta ficha técnica, que tem produção, arranjos, guitarra, teclados, programação de bateria por Johnny Essi – que, mais uma vez, compõe esse pseudo duo com Priscilla de forma competente e excelente – e engenharia de mixagem e master por Jordan Macedo, arrematando o capricho que torne o ep tão relevante e memorável. Os videoclipes tem assinatura de Hugo Pessoa.

É importante pontuar a autonomia que a Sony Music Gospel (e o diretor Maurício Soares), gravadora responsável pelo projeto – dentre outros da artista – tem dado à intérprete, principalmente o apoio a um trabalho tão desafiador, concebido sem pensar em números e resultados quantitativos, mas em objetivos, missão e propósito. Dentro de uma indústria cada vez mais competitiva e voraz, isto merece ser reconhecido, tanto quanto a grandiosidade dO Final da História de Linda Bagunça… O final de uma história que tende a impulsionar inícios e fins de tantas outras.

por Alan di Assis (@alandiassis).

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