A IGREJA E A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

No dia 7 de agosto de 2018, a Lei Maria da Penha completou 12 anos, e tragicamente, as notícias dos grandes jornais esse eram recheadas de histórias de casos de feminicídio e violência doméstica, mulheres mortas por homens em situação de abuso, e apenas poucos dias depois do caso de Tatiane Spitzner, jogada do quarto andar de seu prédio depois de sofrer outras agressões físicas do marido que não aceitava o fim da relação.
E o que a igreja tem a ver com isso? Tudo. Em um país com 60 milhões de evangélicos, nós temos responsabilidade com tudo o que acontece.

EM NÚMEROS | VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL
No nosso país, uma mulher é assassinada à cada duas horas, doze por dia em média, 1 é estuprada à cada 11 minutos, 503 vítimas de agressão por hora. Em 2017, dos 4.473 homicídios dolosos, 946 foram feminicídios, crimes de ódio motivados pelo gênero. Considerando os últimos dados da Organização Mundial da Saúde, o Brasil ocuparia a 7ª posição entre as nações mais violentas para as mulheres de um total de 83 países. E repito, se temos 60 milhões de evangélicos no Brasil, e 86,8% cristãos no geral, esses dados são SIM um problema nosso.

A CULPA NÃO É DA VITIMA
É necessário reafirmar que NÃO, nenhuma mulher merece ser estuprada, morta, ou agredida (de qualquer maneira) por um homem. Maria Madalena foi presa em flagrante de adultério e nem isso fez com que Jesus a julgasse culpada e digna de morte por outros homens tão pecadores quanto. Sigamos seu exemplo.

E A IGREJA COM ISSO?
Por muitos séculos, a desvalorização da figura feminina em nome de “submissão” tem sido pregada de maneira errada, ignorante e longe do evangelho de Jesus. Parte do pensamento cultural de que a mulher é inferior e subordinada a qualquer homem como uma propriedade, é sim, dada a esse falso ensino pregado com tanta euforia.

Em todo seu tempo de ministério na terra, Jesus reconectou mulheres à cultura, trouxe dignidade e honra a todas as que eram excluídas da sociedade extremamente machista da época, deu voz as mulheres que não poderiam falar. Teve seu ministério sustentado por elas, nasceu do ventre de um (quando poderia ter simplesmente aparecido adulto no meio do deserto, porque Ele é Deus) e revelou-se ressurreto primeiramente a elas. De onde a igreja e a religião tirou que o papel do homem é subjugar a figura feminina? Cristo não tem nada a ver com isso e não é disso que se trata submissão.

Submissão bíblica é sobre caminhar sob a mesma missão, sob a mesma visão, em honra, dignidade. O homem deve amar sua esposa como Cristo amou a Igreja, e se essa parte fosse tão pregada como a submissão, a história de muitas mulheres seria diferente.

Trabalhando com internet no meio cristão, não foi uma nem duas vezes que recebi relato de mulheres que apanhavam de seus maridos, servos de Deus, dizimistas, envolvidos com a igreja, e que quando procuraram sua liderança, foram silenciadas, julgadas, seus pastores pediram pra que elas não expusessem o caso para não escandalizar, ou que só orassem porque Deus era capaz de mudar esse homem agressor.
E sim, Deus pode mudar a vida de qualquer um, e qualquer circunstância, mas pedir pra que uma mulher se mantenha em situação de risco e abuso é contrário ao que o próprio Deus faria. Um conselheiro sábio, tiraria a mulher desse contexto, a manteria seguro, e ai sim pensaria em orar por mudança, ou o mais justo, denunciá-lo.

Acredito que essa visão que mantém mulheres em situação de risco “em nome da aparência do casamento feliz” tem manchado de sangue às mãos da igreja, que deveria dar todo suporte a essas mulheres, ao invés de abusarem mais ainda delas.

ENSINEM HOMENS A SEREM HOMENS
Um passo enorme para a mudança dentro das igrejas e assim, mudança da sociedade, é parar de passar a mão na cabeça de agressores em nome da boa moral diante dos fiéis. Incentivar mulheres a pedirem socorro, trazer essas pautas para dentro das nossas reuniões, aconselharem pais na criação de filhos para não criarem homens abusadores ou mulheres que acreditam que é assim que as coisas funcionam.

É uma necessidade urgente começar a moldar homens segundo o caráter de Cristo, como Ele foi, que não sejam mimados, que saibam ouvir “não”, que lidem com suas frustrações de maneira não-agressiva, que tratem o próximo e especialmente mulheres com honra e dignidade, não porque são frágeis, mas porque é assim que Jesus às tratava. Maridos que tratem suas esposas como Cristo amou a Igreja, tornando-a pura, feliz, saudável e plena.

Que venha uma geração de mulheres fortes, plenas da sua identidade em Cristo, que não aceitam menos que o melhor, que não se sujeitam à abusos em nome de um casamento aparentemente feliz.

Num país com tantos cristãos como o nosso, essa realidade deveria nos incomodar e conformar. Os doze de Jesus mudaram o mundo, e nós, o que temos de grande enquanto Igreja, temos de ineficaz. Precisamos mudar o nosso discurso, e torna-lo prático, eficiente, e reflexo de Cristo na sociedade. Não existe outra opção, ou é assim, ou não é Evangelho.


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  • Brasiliense, 20 e poucos anos, meio comunicóloga, meio escritora, meio dançarina, e completamente apaixonada por Jesus. instagram: @rayanefrance

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